Entrevista
Edição 9 - 7/2009
É preciso fixar o professor
Diretor da Udemo, Sindicato dos gestores paulistas, crê que só desta forma escolas podem ter projetos e práticas consistentes
Luiz gonzaga Pinto
Gustavo Morita



O diretor paulista muda muito de escola?

Da forma como está estruturado hoje o ingresso, há um período em que o diretor está procurando uma escola que lhe permita sobreviver. Nesses últimos ingressos, por exemplo, muitos diretores do interior que ficaram em classificações mais precárias foram obrigados a escolher escolas da periferia de São Paulo. Ou moravam em São Paulo e foram obrigados a escolher cidades do interior. Isso cria problemas sérios, como ficar longe da família.

A Folha de S. Paulo publicou a entrevista de um diretor que disse que desconsiderava as recomendações pedagógicas dos governos estadual e federal e que, por esse motivo, sua escola está bem posicionada no Enem. É assim mesmo que a coisa funciona?
Sim. Isso vai de diretor para diretor, uns são mais ousados, outros mais medrosos. Nesse caso, o diretor buscou parcerias na região, com empresas, então a escola dele tem uma infraestrutura melhor. Há muitas escolas que fazem essas parcerias. O diretor precisa ousar, mas nem sempre é possível. Por exemplo, as escolas de periferia, de lugares que estão longe de empresas, sofrem. É muito variada a situação. Há diretores em escolas bem situadas que têm um apoio grande da comunidade. Quando fui diretor no Alto da Lapa, havia uma clientela boa, com participação dos pais, que contribuíam de várias formas - financeiramente, indo às reuniões, opinando. O diretor precisa trabalhar com a comunidade. Se ela valoriza o seu trabalho, ajuda a escola, defende-a. Se ficar isolado, vai sofrer bastante. Mas há locais em que é impossível fazer um trabalho melhor, como essas escolas cujos prédios estão deteriorados, nas quais o Estado ainda não fez melhorias.

Hoje, ao menos no discurso, valoriza-se muito a figura do gestor. Esse discurso se materializa como apoio?
Não. O diretor é uma figura importante, mas não tem a contrapartida de uma boa infraestrutura escolar e de um salário compatível. O piso de um diretor de escola hoje no Estado de São Paulo é de R$ 1.648. O salário-base é de R$ 2,3 mil. Com os descontos, o líquido fica em torno de R$ 2 mil. Até os 20 anos de carreira, isso não muda muito. O salário não é compatível com a importância do cargo. Isso cansa e desestimula muito. Diante de um salário baixo, ele vai procurar outros afazeres para completar o salário doméstico. Vai dar aula à noite. Hoje, uma das nossas reivindicações é a equiparação com a Prefeitura de São Paulo, que tem um piso relativamente bom, de quase R$ 3 mil para os ingressantes. E evoluem rapidamente. Um diretor da prefeitura se aposenta com R$ 6 mil. O do estado pode chegar a ganhar até R$ 5 mil no final da carreira, mas, quando se aposenta, não vai passar de pouco mais de R$ 3 mil, pois há muitas gratificações não incorporáveis. É surpreendente que o estado não valorize o diretor. Somos poucos: 5,3 mil na ativa e mais 5 a 6 mil aposentados.

E quanto à autonomia? Qual a margem de manobra que o diretor tem hoje?
Depende. É preciso analisar sob vários aspectos. Do ponto de vista pedagógico, as escolas que têm projeto estruturado dificilmente têm interferência. Do ponto de vista administrativo, há muita burocracia. O diretor é muito instado a oferecer informações sistemáticas à secretaria, muitas delas de pouca importância. No que tange aos funcionários, há sérios problemas com merendeiras, falta de funcionários, de secretários. Estes prestam concurso, ingressam, mas quando se defrontam com o salário, muitos desistem. Não há um sistema que forneça sistematicamente o número necessário de funcionários a cada escola. Quanto às verbas, o que é enviado à escola ainda é muito pouco, há falta de infraestrutura financeira. São verbas quadrimestrais de manutenção e de despesas Miúdas de Pronto Pagamento (MPP). Se há um problema mais grave de consertos a fazer, não há dinheiro. Se mandar o pedido para a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), vai levar um tempão para consertar o que se deve consertar. Por esse motivo, muitas escolas se deterioram.

Qual a solução para isso?
É preciso ter um planejamento. Ultimamente, parece que eles têm feito reformas mais rápidas. Mas deixa muito a desejar a questão da autonomia da escola para resolver esses problemas.

Como se faz para levar adiante um projeto pedagógico consistente com tantas faltas de professores? A lei estadual que restringe a possibilidade de faltar melhorou o quadro?
O número de faltas ainda é muito grande. Mas o problema é você ter uma estrutura. Em todo sistema há faltas. As pessoas ficam doentes, têm problemas. O professor não é diferente de ninguém. Há faltas nas empresas privadas e nas escolas particulares.

Não na mesma proporção...
O número de faltas na escola privada é menor porque as sanções são mais sérias; se o professor não atendeu à organização da escola, é demitido, o que não acontece na escola pública. Para se desfazer de um professor incompetente ou relapso é preciso abrir um processo administrativo. Dificilmente ele será posto para fora, por pior que seja. A não ser que haja crime.

E como se faz para engajar os professores num quadro como esse?
Por meio de um bom projeto pedagógico, que é uma profunda reflexão que a escola faz sobre seus rumos. Esse é um instituto que tem de ser desenvolvido em todas as escolas que pretendem ter qualidade. Não é uma tarefa fácil de ser feita em meio à estrutura precária. Para se ter uma progressão continuada consistente é preciso ter os professores sistematicamente na escola. Na escola pública, há muita rotatividade, principalmente entre os temporários. Quase 40% do corpo docente é composto por temporários que, no final do ano, estarão fora da escola. Podem até voltar, mas não é regra. Precisamos de uma escola que fixe os professores, temporários ou efetivos. Isso é uma condição para ter um projeto pedagógico e uma progressão continuada consistentes.

Qual sua visão sobre a proposta do governo federal de adotar o Enem como prova de ingresso para a universidade e de fomentar a interdisciplinaridade?
A interdisciplinaridade é uma condição para se ter um trabalho coletivo na escola. Na medida em que o Enem estabelece esses objetivos, forçosamente influenciará o processo do ensino médio.

Os docentes estão preparados para isso?
Tudo depende do projeto pedagógico da escola. Mas pode ser que com a introdução de um Enem obrigatório, fundado na interdisciplinaridade, isso passe a ocorrer em todas as escolas. Seria um aspecto positivo. O problema do Enem nas escolas públicas é seriíssimo. Na rede estadual, as escolas não conseguem chegar à nota 5. Não é muito diferente do bônus baseado no Idesp que o Estado pagou agora. A média do Idesp é quase a mesma do Enem no ensino médio. O Enem tem demonstrado que o ensino médio nas escolas públicas estaduais está falido.

Há algum trabalho de gestão de outras redes públicas, municipais ou estaduais, que seja exemplar sob algum aspecto?
Não acredito que haja qualquer estado em situação muito melhor que a do Estado de São Paulo.

Nas notas das avaliações, há.
Isso é relativo. Não sei de que maneira os alunos foram recrutados para essas avaliações externas. No Norte e no Nordeste é uma desgraça, o Centro-Oeste não é muito melhor. O problema de qualidade de ensino é nacional, não de São Paulo. As escolas públicas são ruins. No Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, não há redes de ensino como no Sul e no Sudeste. Tem escolas isoladas. Nas grandes capitais há algumas escolas públicas com alguma qualidade, mas no geral é um desastre. Não conseguimos sequer viabilizar o piso nacional. As prefeituras alegam que não podem pagar R$ 950 por 40 horas semanais... O que se pode ter de ensino com um piso nacional desse tipo? Há, circunstancialmente, excelentes escolas, que você conta nos dedos. Mas é preciso pensar nos sistemas, não nas exceções. As reportagens trabalham com as exceções, não com a regra.

O que o senhor acha da formação dada nos cursos de pedagogia a quem quer ser diretor?
Falta prática, a teoria é dada com bastante ênfase.

Quais são os elementos essenciais, que dependem do diretor, para uma boa gestão?
Em primeiro lugar, uma boa formação do ponto de vista administrativo e pedagógico. Segundo, uma posição política bastante aberta, que leve a escola a se transformar em algo participativo. Terceiro, tem de ter uma preocupação fundamental com o projeto pedagógico da escola, fazer uma discussão e aprofundamento permanentes. E uma boa formação técnica, prática e teórica. Essas questões são fundamentais.

E qual a forma mais justa de escolher esse diretor de escola?
Concurso público. É democrático, constitucional e dá oportunidade a todos. Eleição me parece uma aberração. Tende a partidarizar a escola. O diretor vai fazer campanha para ser eleito. Se eleito, vai fazer campanha para permanecer no cargo. E isso pode criar blocos de conflito na escola. Isso não tem nada de democrático. Escola é um instituto específico. Escola democrática é a escola participativa. O resto é demagogia e questão ideológica que não tem nada que ver com a educação.

EDIÇÃO 16